terça-feira, 17 de março de 2015

pequena constatação do mundo atual

o país tem fome
a ganância consome
a esperança some
a solidão come

as pessoas brigam
as crianças gritam
os tanques atiram

e eu fico aqui assistindo tudo sem saber o que fazer, vendo o ódio crescer, vendo a humanidade se perder

terça-feira, 10 de março de 2015

Te puedo ver en mi, me puedo ver en vos

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Chove e eu escuto Inmigrantes. "Caen las hojas, cae la lluvia, cae tu ropa en mi cama... todo cae." Impossível não lembrar dessa mistura de eu e você que somos nós dois. E mais uma vez, me pego desejando aquela noite de chuva em que nada seria capaz de me esquentar mais que teu corpo. Nem o cobertor mais quentinho. Nem a bebida mais forte. Só teu corpo ao lado do meu, tuas pernas entrelaçadas nas minhas, teu sorriso bonito na minha direção.

Mas agora chove e chove, e não para de chover. E eu aqui, querendo deitar com você, querendo preencher todo o espaço de um colchão de solteiro com mãos, braços e abraços de nós dois. O planeta Terra deu sete voltas completas ao redor do Sol e eu continuo desejando você. Quantas estações vieram e foram embora e eu carreguei comigo essa saudade que nunca esvaziava meu peito. Vários solstícios de inverno e querer tua presença sempre foi uma constante. Te sentir, te admirar. Deitar em qualquer lugar contigo e traçar linhas nas tuas costas com meus dedos. Decorar tuas expressões.

"El alma se llenó" sempre será nossa música. Por que é sempre amor, mesmo que mude. E nós mudamos. Mais de cinquenta mil horas passaram e nos fizeram mudar. É sempre amor mesmo que alguém e esqueça o que passou. Mas nós não esquecemos. Tu não esquece o calor dos meus braços. Eu não esqueço teus carinhos reconfortantes.

Continua chovendo. Toca Bidê ou Balde e Inmigrantes. Sim, sempre serão nossas músicas. E sim, continua chovendo e vai chover muitos dias ainda. Mas nos próximos dias de chuva assim, eu quero estar com você. Sorrindo com teu sorriso. Quentinha nos teus braços. Feliz de coração.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

I've seen it all go and come back around

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Os livros abertos no chão. As flores mortas do vaso caídas por sobre a cômoda. A luz do sol de inverno entrando pela fresta na madeira que existe no meu quarto. Por entre ela o vento às vezes me traz uma folha seca. Duas, talvez. Meu suco de maracujá apodrece intacto esverdeando um copo em cima da mesa. O jornal se acumula na frente da porta de casa. O braço da agulha do toca-discos quebrou. Ela agora insiste em repetir o mesmo lado do velho disco do Dire Straits, como se tivesse sido programada pra isso. Mas nem isso é problema, por que a poeira se acumulou na caixa de som e ela não toca. Não emite som. Emudeceu. Assim como eu.

Faz silêncio na minha alma. A vida segue e eu não. As pessoas passeiam embaixo da minha janela. O gato da vizinha se instalou no meu apartamento. Come as sobras da comida. As flores na sacada também secaram. Eu culpo o inverno. Mas o meu descuido é o real culpado. Flores vítimas de mim. De meu descaso. Do meu entorpecimento.

Eu abro a boca pra falar e o barulho é de tentar tocar uma corda frouxa de violão. Sai tudo torto. A neve se acumula na varanda da cozinha. A casa se acumula tanto de solidão que não sobra espaço pra mim. Não sei o que a vida fez de mim. Só sei que respiro nostalgia. Tudo com aquele cheiro doce de poeira. Vejo o vento pelar as árvores. Vejo o sol se escondendo mais cedo. Surgindo mais tarde. Não vejo a Lua. Não saio mais na rua.

Me pergunto aonde estará você. Se o tempo passa estranho assim pra você como é pra mim. Me pergunto se aquela música da Janis ainda te faz arrepiar. Se você ainda dorme com o braço pra fora da cama. Quem sabe um dia desses te reencontrar. Te dar um tchauzinho do outro lado da rua. Quem sabe te ver, quem sabe aprender a te odiar. Tocar novamente o barquinho da vida. Apontar pra fé e remar.

P.s.: me influencio por músicas às vezes, e escrevo o que elas me passam, mesmo que não sinta aquilo de verdade. No caso desse post, foi Miss You Love, do Silverchair e Beautiful War, do Kings of Leon.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Quanto tempo o tempo tem?

Mais um desses dias em que o pôr-do-sol leva o dia embora em sua carruagem de fogo. E o tempo vai passando, vai sem dó, que dirá piedade, massacrando todos nós, arrastando os segundos como folhas secas ao vento. Vai e leva todos os planos que não foram postos em andamento. O tempo segue e faz crescer os dentinhos dos bebês, assim como os ensina a andar, põe rugas nos rostos das mulheres e aumenta a calvície dos homens.

Mas às vezes eu queria poder não viver, apenas observar, ver os ponteiros do relógio girarem incansavelmente mostrando que o tempo na verdade não espera ninguém. Observar a grama crescer, as árvores deciduais perderem suas folhas no outono, para logo depois o vento gelado do inverno consigo levar.

Queria assistir o coração da garota que se apaixonou pelo colega de sala e ele lhe deu um fora, quanta dor nele vai caber até que o tempo leve embora e não sobre mais nenhuma.

E o tempo é isso mesmo, curador de corações partidos e amenizador ou intensificador de saudades. Envelhecedor de gente/bicho/planta/tudo. Indicador de efeitos gerados por decisões sábias ou infelizes. Transformador de pequenos embriões em grandes adultos.

Esse tempo. Nem bendito nem maldito. Só incessante. Sempre pontual. Cazuza tava certo quando disse que o tempo não parava, não para mesmo.

Mas ainda assim espero que ele seja doce para mim e para você.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Etre proche ne est pas physique. Dans ce cas, est.

Te cravo as unhas nas costas. Te envolvo com coxas grossas. Jogo na imensidão do quarto teu nome num sussurro em crescente, um gemido abafado. Tão logo tu escutas, geme em resposta. Minha pele roçando na tua. Teu sexo colado ao meu. Teus cabelos na testa, os meus por toda a cama e cara, ombros e seio. O outro seio repousa na tua mão que não repousa, mas acaricia-toca-provoca infinitamente, enviando sensações de cima pra baixo. Minha boca próxima ao teu ouvido, um fiapo de voz chamando teu nome. Mas só até minha língua escorregar no teu pescoço, teu sinuoso pescoço. As gotas de suor de dois corpos se misturando e se tornando o menor número ímpar. Nós dois sendo um. Tu sendo parte do meu corpo, grudado a mim, tão componente de mim. Tua mão deslizando pela minha coxa e desprendendo dela por uns poucos instantes até colar-se a ela novamente com intensidade gasta em forma de tapa. Chamo teu nome. Como resposta tu me olhas. Te impulsionas mais forte. Teu corpo quase explode.

O meu também.

Até que nos esvaímos. Tu te pende torto em cima de mim. Rosto suado. Respiração entrecortada. Sorriso na cara. Beija minha bochecha.

Je suis à vous. Tu es à moi. Ensemble, nous sommes seulement notre et ne appartiennent pas à quelqu'un d'autre. Ensemble.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Que tua ausência se torne ausente.



Eu não quero mais estar presa a teus braços. Braços como laços que me atam, me aprisionam, me impedem de sair. Logo eu, óh céus, eu, a pessoa que mais se perdeu nas curvas do teu sorriso de dentes brancos, a pessoa que mais traçou o caminho do teu nariz alinhado até tua boca carnuda. Eu, que infinitas vezes já colei meu corpo no teu, regozijei de prazer extremo com teu corpo colado ao meu, te abracei e te beijei por horas incontáveis até perdemos a noção do tempo. Eu, tu, tu, eu, quantas vezes nos entregamos completamente aos mistérios da carne, aos encantos da paixão, um perdendo-se no chamego do outro, no afago do corpo amado. Mas eu já decidi que não quero mais. Eu não desejo mais para a minha vida uma noite de perdição no fundo dos teus olhos. Nem quero mais teus braços ao redor de mim, tampouco sentir o aroma pelo qual sou apaixonada e que mora nas curvas do teu pescoço. Desejo uma existência sem nunca mais poder te ver, assim te olvidarei (ou assim eu penso) e não sofrerei as duras dores da tua ausência, que toma conta de mim quando não estás perto, que me assalta, que me traz angústia.

Não desejo tua ausência seguido de tua presença, para logo depois tornar-se ausência de novo. Esse ciclo constante de tortura me oblitera e me corrói. Gostaria de não sentir nada, a não ser que de ti eu pudesse sentir tudo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Eu não quero ser a Summer.

Eu não quero, mas eu sou. Eu sou por ter te falado que eu não quero mais. Mas eu não disse assim. Eu percebi que não ia rolar. Eu pulei fora. Eu sonhava todo o dia com alguém que me fizesse o coração bater mais rápido, alguém por quem eu atravessaria a cidade a pé no pior dia de chuva. Eu encontrei essa pessoa. Mas ela não é você.

Mas você tem zilhões de qualidades. E você é lindo, por dentro e por fora. É fácil ficar com você. Difícil é amar você. Isso pode ter sido meio rude, mas a culpa não é sua. Nem minha. Nem dele. Nem de ninguém. Mas meu coração bateu mais rápido, e eu já atravessei uma cidade no pior dia de chuva - só não foi por você.

Foi por outro. Que tem menos qualidades que você. Que não é assim tão mágico. Foi um desses que nunca vai cobrir nossa cama de rosas pra termos uma noite bonita, como você fez. Ele também nunca vai me buscar no aeroporto com uma plaquinha escrita "A garota que mais amo". Nunca vai me dar um gato antes de viajar pra que eu não me sinta sozinha. Não. Ele não é tão bom quanto você.

Mas esse cara me olhou nos olhos a primeira vez e eu senti. Não sei o quê, mas foi diferente. Foi único. Mesmo ele não sendo tão sensacional como você. Ele nunca leu Kerouac, nem Gregório de Matos e muito menos Galeano. Ele não é culto como você. Ele é apenas ele. E por que eu me apaixonei por ele, eu não sei. Eu senti que ele também se apaixonou por mim. E eu senti que aquilo só podia ser algo mais.

Você é tudo o que eu sempre desejei na vida. Se não fosse ele, eu casaria com você. Nunca nos faltaria assunto. Sempre riríamos juntos. Mas você não é ele. Eu não te amei, eu amei ele. Eu amo ele.

Três dias sem ver ele e morremos lentamente, só pra revivermos quando nos abraçamos de novo. Ele me critica e tem rompantes de estresse comigo. Eu chamo ele de coisas que nem o diabo sabe o que significam, eu mando ele à merda e penso em largar ele. Mas não largo. Porque no fim do estresse, é ele quem importa. É a presença dele do meu lado. Ele é minha doença e minha cura.

Ele quis me deixar e não aguentou. Ele falou que nunca vai ser você. Que eu não espere um um pedido de casamento super fofo e elaborado, daqueles que viram vídeo do YouTube. Ele não é romântico. Mas ele me ama. Pelo jeito que ele correu pro hospital quando quebrei o braço, eu vi. A maneira como ele me olhou o tempo todo nos olhos no sexo depois da primeira briga séria, e o ato dele de ter entrelaçado os dedos na minha mão o tempo todo.

Eu não sei te explicar. Eu devo explicações? Dá pra explicar algo assim? Você pode ser tudo que eu sempre achei que quis, mas ele e esse amor verdadeiro e mútuo era tudo que eu precisava.