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domingo, 24 de maio de 2015

Rain when I die

Há tempos eu não saio mais de casa à noite. Eu nunca saio, nunca mesmo. Bebo em casa. Rio em casa. Faço festa no meu lar. No dia que resolvo sair, chove. Como se até mesmo o próprio clima quisesse me deixar em casa. Me obrigando a pensar em um plano B. Me obrigando a fazer exatamente o que eu não queria: pensar.

Não adianta mais acender um cigarro atrás do outro. Minha mente cansou da letargia. Minha mente quer ver gente, quer ver o mundo. Mas a chuva é forte demais. Pelo menos não faz frio. Em noites frias as ausências se tornam mais óbvias. E o teu cheiro ainda está no meu travesseiro. Ainda tem roupas tuas largadas no meu quarto, misturadas na minha bagunça. Bagunça mesmo está meu peito. De vez em quando se enraivece. De vez em quando sente saudade. Mais saudade do que raiva.

A máquina apitou, ficou pronto o café.  Tomo uma, duas, três xícaras. Jogo Campo Minado no computador. Fico me perguntando se ainda tem alguém no bar. Se ficaram presos com essa chuva ou se resolveram ir pra casa. Desisto de pensar isso. Eu não vou querer sair na chuva. Fico pensando em toda essa confusão que se instalou na minha mente. Mas só o que vem é a saudade. Saudade, saudade.

Por que eu ainda lembro do teu cabelo roçando minha orelha. Eu ainda sinto falta da nossa coleção de camisetas pretas. Mas eu sigo tomando meu café e fico observando a chuva pela janela. A água que bate em gotas. O café eu ainda tenho. Mas você, não.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Em fuga



Estou fugindo, meu bem. Sou eterna fugitiva nessa vida. Fujo da dor, fujo do medo, fujo de tarefas difíceis e fujo de compromissos, fujo de pessoas que me exigem mais do que eu posso dar e fujo do amor também. É, eu fujo do amor. Eu fujo por que eu não quero ter que parar nos braços de um alguém que vai ter outra nos braços. Fujo por que quero evitar a mágoa que um dia poderei ter. Nego os prazeres de amar e ser amada por medo de que um dia isso tudo acabe.

Fujo por saber que não encontrarei sorriso tão doce quanto o teu, que desses corpos que passam por mim na rua, em festas e até mesmo na minha cama, não vão ter teu cheiro e não o calor do teu abraço. Eu fujo de tudo um pouco, mas eu fujo principalmente da distância geográfica que existe entre eu e você.

Fujo pra longe daqui e mais perto daí, por não querer passar mais nem um dia de minha existência sem ter teu carinho, sem tomar um café com leite olhando pra você e sua cara de sono, seu cabelo irremediavelmente bagunçado, sua barba por fazer, o cigarro pendurado nos seus dedos, o sorriso de escárnio para o mundo. E falando em mundo, eu quero fugir desse mundo em que você está sozinho aí e eu sozinha aqui, e ir para um mundo onde eu e você você e eu, nós dois e toda a nossa intensidade estejam juntas, grudadas iguais queremos que estejam nossos corpos, nossas bocas, nossas mãos e nossas almas.

segunda-feira, 30 de março de 2015

It's just a freight train coming your way.

Aquele momento de incerteza. Aquele momento de desgosto. De descontentamento. De desespero. Aqueles dias em que nada parece estar bom, em que você tem vontade de mudar tudo. De jogar tudo pro alto. De ligar o foda-se geral. De descartar tudo que não te faz bem. De mudar várias coisas. Cortar o cabelo, mandar aquela pessoa à merda. Vontade de afastar-se de tudo e de todos, de viver uma nova vida, por que aquela está te machucando. E sim, você sabe que vai conseguir passar por aquilo tudo se não conseguir mudar nada. Mas o desgaste de passar por tudo isso é grande. Daquelas experiências que quando acabam a gente solta um longo suspiro, como se não soubéssemos o que fazer. Sei lá. Existe algum botão que dê pra gente apertar e mudar algumas coisas? Como os sentimentos que temos por alguém, a sensação ruim de desespero por não ter dinheiro pra pagar tal conta. Ou aquele sentimento de esperança seguido de decepção: você achava que tinha enxergado uma luz no fim do túnel, mas é um trem desgovernado vindo na sua direção. Aquela hora que você tem vontade de dormir e acordar com uma outra vida. Uma melhor que essa, quem sabe. Aquela vontade de desligar o mundo. Ou melhor, de apertar o botão de reset, pra ver se reinicia de uma vez melhor. Não dá pra reiniciar nossa vida, do jeito que fazíamos pra reiniciar a vida dos tamagotchis? Acho que não. Esses dias que a gente cansa de tudo. Quer fazer tudo diferente. E mesmo assim, respiramos fundo e conseguimos seguir em frente. Não sei como e nem porque. Só seguimos.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Wherever tomorrow brings, I'll be there



With open arms and open eyes, yeah.

Saio caminhando por aí nas noites geladas. Desses dias em que a fumaça do cigarro se mistura à cerração que mora no ar da minha cidade. Dessas vezes em que você termina de ler um livro do Kerouac e quer sair andando por aí. E aí bate aquele desejo de ter uma linha de trem na sua cidade. Pra quê? Pra andar por entre os trilhos. Pra deitar nos trilhos até sentir eles tremendo e bater aquele medo, levantar correndo, sair dali e ver o trem passar. Mas eu também gosto de calma. Eu gosto também de sentar no alto de algum morro e ficar fumando meu cigarro enquanto observo uma gorda lua. Dessas luas enormes, sabe? Eu gosto. E aquele vento frio batendo no pescoço, fazendo arrepiar os pêlos da nuca. E eu gosto do frio. Principalmente daquele frio seco.

E a noite me agrada. Principalmente aquelas noites claras em que se dá pra ver a intensidade do brilho das estrelas. Mas minha alma quer andar. Palmilhar por aí. Não sei para onde, não sei por onde. O cérebro sai do comando e deixa a alma me guiar. A alma toma conta das minhas pernas e eu vou caminhando sem destino, sem direção. Acendo outro cigarro. Combustível. Deixo o vento me levar. Deixo a alma me guiar. É estranha e boa a sensação de plenitude de quando o corpo trabalha e a mente se aquieta. Enquanto isso, mais um cigarro. Vou caminhando por uma rua que nunca vi. Não sei onde vai dar. Acho que volto pra casa quando acabar a carteira de cigarros. Quando o corpo cansar. Quando a mente estiver satisfeita das caminhadas em que as pernas me levam.

Mas volto com a alma leve. Livre. E ao mesmo tempo, plena. Cheia de coisas boas. E livre das ruins. Volto com o pulmão cheio de fumaça, de nicotina. Na boca, o gosto doce que o cigarro deixa nos lábios. Nas bitucas do cigarro, marcas do meu batom vermelho. Volto pra casa e tem um livro de algum poeta beatnik em cima da cama. Mais um livro que vou ler, e quando terminar, onde vou bater? Não sei. Só sei que pra onde eu for, terei um bom casaco preto e no bolso um isqueiro e uma carteira de cigarros. E tô pronta pra outra.